Acirramento político e intolerância

Entrevista concedida por Arnaldo Bassoli
ao repórter Alan Faleiro, da Folha do Mate – RS, em 30/4/2016

O acirramento político no Brasil tem sido acompanhado de manifestações de intolerância nas redes sociais e também fora delas. Em uma democracia, divergir é natural, mas o cenário tem se dirigido para a radicalização e evidenciado a dificuldade de aceitar quem pensa diferente.

Para o psicólogo, psicoterapeuta e facilitador de grupos de diálogo, Arnaldo Bassoli, a intolerância vem da ideia de que nossas crenças são as únicas crenças verdadeiras. ‘É preciso entender que aquele que pensa diferente de mim também tem suas razões – e DIALOGAR!’ Co-fundador da Escola de Diálogo de São Paulo, instituição que busca melhorar a qualidade e a profundidade das conversações, Bassoli concedeu entrevista ao jornal Folha do Mate em que aborda o clima de radicalização política que toma conta do país.

Folha do Mate – A origem da dificuldade do diálogo em tempos de crise política passa pela intolerância?

Arnaldo Bassoli - Sim. Entre outras coisas, pela intolerância. O que é a intolerância? É a atitude de fechar-se mental, afetiva, existencialmente ao outro, aquele que acredita em uma verdade diferente da minha. Mostro isso em minhas atitudes, no meu corpo, na minha expressão física, na minha fala. Posso até construir muros, fisicamente, para evitar o convívio com ele! Na intolerância, na falta de encontro e Diálogo, quando acredito que minhas crenças são as únicas crenças verdadeiras, isolo-me dos relacionamentos humanos – que são a essência da vida. A verdade não é minha; é nossa. Ao criar condições para o Diálogo, criamos condições para que haja uma verdade multidimensional, não unidimensional. Em outras palavras: compreendemos que todos têm suas necessidades, e elas são diferentes entre si; não há fórmula única que atenda a toda a diversidade presente no mundo vivo e no mundo humano.

Você acredita que as redes sociais acentuam o acirramento político que há hoje no Brasil?

Sim e não. Em essência, não são as redes sociais que acentuam o acirramento político no Brasil; mas elas o tornam mais presente, mais volátil, mais rapidamente o disseminam. No mundo da rede social, tudo acontece num piscar de olhos. Postei, e pronto. As conversas são rasas e o ritmo é acelerado. Tudo se “viraliza”; e tomamos posições mais emocionalmente. Tudo isso contribui para, mas não é “a” causa do acirramento político. Não há uma só causa. O acirramento tem múltiplos fatores causais e dimensões, nacionais e extra-nacionais, de toda ordem: sociais, políticos, econômicos, etc. Notamos que há uma tendência à unidimensionalização e radicalização em todos esses campos – não só aqui, mas no resto do mundo também. Precisamos cuidar disso; precisamos aprender a dialogar e dialogar muito!

Como falar sobre o momento do país sem ser agressivo?

Difícil, não é? O momento de acirramento que vivemos envolve de maneira importante um recrudescimento das emoções. Não é a razão que radicaliza; não é que percebi uma verdade importante para todos, que quero compartilhar com todos. O que me leva ao acirramento é o fato de sentir-me ameaçado em minhas crenças. Por que eu me sinto ameaçado em minhas crenças? De novo, por muitos fatores… porque minha educação me ensinou assim… porque o “ethos”, a ética deste momento, e a organização sistêmica do nosso mundo agora parece acreditar que é melhor crer em uma só coisa e conflitar-se com aquilo que é diferente… quando sabemos, na verdade já sabemos muito bem sabido, que a grande riqueza está na diversidade. Os sistemas vivos mais fortes são aqueles que contam com a maior diversidade. É fato… E fico agressivo também porque eu não refleti de maneira aberta a respeito dessas minhas crenças. Ficar agressivo é sinal de fraqueza, não de força. Qualquer um que reflita sobre aquilo em que crê pode perceber que o que confere força às suas crenças é a autenticidade, não o dogmatismo. É que elas vêm de dentro de mim porque estou aberto, não porque tento enfiá-las goela abaixo – minha goela, ou a do outro, tanto faz. Isso é ser agressivo.
Passamos por um momento difícil, no país e fora dele. É preciso abrir a cabeça. É preciso enxergar o outro. É preciso entender que aquele que pensa diferente de mim também tem suas razões – e DIALOGAR! Vemos líderes radicais sendo cada vez mais populares – como por exemplo, nos EUA, com Donald Trump vencendo primárias pelo partido Republicano… a ética dele é excluir os diferentes. Talvez seja mais fácil dar vazão à raiva do que admitir a diferença – de igual para igual…
Se cuidarmos de cultivar uma outra ética, a do respeito às diferenças, não há necessidade de agressão. A agressividade deixa de ter sentido.
Por que não fazemos isso antes das guerras? Por que nos deixamos arrastar por elas? Por que recorremos à agressividade? Sempre há outra saída. Ela é muito mais inteligente, mas mais trabalhosa também.

Publicado em Sem Categoria | Deixar um comentário

A Crise é Interna – Jiddu Krishnamurti

J. Krishnamurti, famoso filósofo que trouxe para o mundo ocidental ensinamentos de rara beleza e precisão, fala-nos neste vídeo sobre a relação entre o mundo interior e a ordem no mundo exterior.
Muito oportuno para o momento político mundial – e também brasileiro – que vivemos.
O que acham?

Publicado em Sem Categoria | Deixar um comentário

Claudio Naranjo e a Educação

A educação que rouba dos jovens a consciência, o tempo e a vida – entrevista com Claudio Naranjo

claudio-naranjo-1024x682

Quando ouvimos este psiquiatra chileno de 75 anos, temos a sensação de estarmos diante de Jean-Jacques Rousseau do nosso tempo. Ele nos conta que esteve bastante adormecido até os anos 60, quando se mudou para os EUA, se tornou discípulo de Fritz Perls, um dos grandes terapeutas do século XX, e passou a integrar a equipe de terapeutas do Instituto Esalen da Califórnia. A partir deste momento passou a ter profundas experiências no mundo terapêutico e espiritual. Entrou em contato com o Sufismo e tornou-se um dos introdutores do Eneagrama no Ocidente. Ele também se aprofundou nos estudos do budismo tibetano e do zen.

Claudio Naranjo tem dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino em universidades como Harvard e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração de Gestalt-terapia, o Eneagrama e Meditação para enriquecer a formação de terapeutas  professores. Neste momento, lança um alerta contundente: ou mudamos a educação ou o mundo vai afundar.

– Você diz que para mudar o mundo é preciso mudar a educação. Qual é o problema da educação e qual é a sua proposta?

– O problema da educação não é de forma alguma o que os educadores pensam que é. Acreditam que os alunos não querem mais o que eles tem a oferecer. Aos alunos vão querer forçar uma educação irrelevante e estes se defendem com distúrbios de atenção e com a desmotivação. Eu acho que a educação não está a serviço da evolução humana, mas sim da produção ou da socialização. Esta educação serve para adestrar as pessoas de geração em geração, a fim de continuarem sendo manipulados como cordeiros pela mídia. Este é um grande mal social, querer usar a educação como uma maneira de embutir na mente das pessoas um modo de ver as coisas que irá atender ao sistema e a burocracia. Nossa maior necessidade é evoluir na educação, para que as pessoas sejam o que elas poderiam ser.

A crise da educação não é uma crise, entre as muitas crises que temos, uma vez que a educação é o cerne do problema. O mundo está em uma profunda crise por não termos uma educação voltada para a consciência. Nossa educação está estruturada de uma forma que rouba as pessoas de sua consciência, seu tempo e sua vida.

O modelo de desenvolvimento econômico de hoje tem ofuscado o desenvolvimento da pessoa.

– Como seria uma educação para a qual sejamos seres completos?

– A educação ensina as pessoas a passarem por exames, não a pensarem por si mesmas. É um tipo de exame em que não se mede a compreensão e sim a capacidade de repetir. É ridículo, se perde uma grande quantidade de energia! Ao invés de uma educação para a informação, precisamos de uma educação que aborde o aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Para mim parece que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação secular e uma educação autoritária, que é a educação religiosa tradicional. Está tudo bem separar o Estado e a Igreja mas, por exemplo, a Espanha, tem descartado o espírito, como se religião e espírito fossem a mesma coisa. Precisamos que a educação também atenda à mente profunda.

– Quando você fala sobre a espiritualidade e a mente profunda o que quer dizer exatamente?

Tem a ver com a própria consciência, com essa parte da mente da qual depende o sentido da vida. Está se educando as pessoas, sem este sentido. Tampouco é uma educação de valores, porque a educação de valores é demasiadamente retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação pessoal e esta transformação está longe da educação atual.

A educação deve também incluir um aspecto terapêutico. O desenvolvimento pessoal não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito danificados afetiva e emocionalmente pelo fato de que o mercado de trabalho esta absorvendo os pais que não têm mais disponibilidade para os filhos. Há muita carência amorosa e muitos desequilíbrios nas crianças. Não pode aprender intelectualmente uma pessoa que está emocionalmente danificada.

O lado terapêutico tem muito a ver com resgatar na pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de satisfazer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado, tanto a formação, quanto a criança, são instrumentos desta domesticação. Temos uma civilização doente que os artistas perceberam há muito tempo e agora cada vez mais pensadores, percebem também.

A educação parece interessada apenas em desenvolver as pessoas racionais. Que outras partes mais poderiam ser desenvolvidas?

-Eu coloco ênfase de que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que os homens predominaram no controle político, cerca de 6000 anos atrás, instaurou-se o que chamamos de civilização. E não é só o domínio masculino e nem só o domínio da razão, mas também a razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia; é este predomínio da razão instrumental sobre o afeto e a sabedoria instintiva, que nos tem empobrecido. A plenitude só pode existir em uma pessoa que tem os três cérebros ordenados e coordenados. Deste meu ponto de vista, precisamos de uma educação para os seres com três cérebros. Uma educação que poderia ser chamada de holística ou integral. Se vamos educar a pessoa como um todo, devemos ter em mente que a pessoa não é apenas razão.

Ao sistema convém que cada pessoa não esteja em contato consigo mesma e nem que pense por si mesma. Por mais que se levante a bandeira da democracia, ele tem muito medo que as pessoas tenham uma voz e estejam conscientes. A classe política não está disposta a investir em educação.

– A educação nos faz mergulhar em um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente. Como se pode sair desta prisão?

Esta é uma grande questão, uma questão necessária, no mundo educacional. A ideia de que o conceitual é uma prisão, requer uma certa experiência de que a vida é mais do que isso. Para quem já tem interesse em sair da prisão intelectual, é muito importante ter disciplina para parar a mente, ter a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo… Parar os diálogos internos, em todas as tradições do desenvolvimento humano, tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa se alimentar de coisas a mais, do que conceitos. O sistema educacional quer aprisionar o indivíduo, em um lugar onde ele esteja submetido a uma educação conceitual forçada, como se não houvesse outra coisa na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza…a capacidade de reverência, de admiração, de veneração e de devoção. Isto não tem a ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está se perdendo, da mesma forma que estão perdendo, belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e se urbaniza.

– Precisamente, quero saber sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.

Ela é uma crise muito evidente, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que, com o aquecimento global, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, muitas pessoas não poderão sobreviver.

Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando ficarmos sem o combustível, será um desastre para o mundo tecnológico que temos.

As pessoas que chamamos primitivas, como os índios, têm uma maneira de tratar a natureza que não vem do sentido utilitário. Na ecologia, na economia e em outras coisas, temos dispensado a consciência e trabalhado apenas com argumentos racionais que estão nos levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança pelo coração, com a verdadeira transformação que só um processo educativo pode dar. Com isto, eu não tenho muita fé nas terapias ou religiões. Só uma educação holística poderia evitar a deterioração da mente e do planeta.

– Poderiamos dizer que você encontrou um equilíbrio em sua vida nesse momento?

-Eu diria que mais e mais, apesar de eu não ter terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com muita satisfação, a satisfação de ajudar o mundo que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz nesta situação trágica em que todos nós estamos.

-A partir de sua experiência, da sua carreira e sua maturidade, como você processa a questão da morte?

-Em todas as tradições espirituais aconselha-se, a viver com a morte ao lado. Você tem que chegar a essa evidência de que somos mortais, e que levar a morte a sério não será tão vaidoso. Não teremos tanto medo das coisas pequenas, quando temos uma coisa maior com que nos preocupar. Acredito que a morte só é superada para aqueles que de alguma forma, morrem antes de morrer. Precisamos morrer para a parte mortal, para a parte que não transcende. Aqueles que tem tempo, suficiente dedicação e que vão suficientemente longe nesta viagem interior, finalmente encontram seu verdadeiro Eu. Este ser interior ou este ser que é um, é algo que não tem tempo, e dá a uma pessoa uma certa paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossas vidas diárias, em nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc…Não estamos em nós mesmos, não temos conhecimento de quem somos. Para isso, precisamos estar muito sintonizados com a nossa experiência de tempo. Esta é a condição humana, estamos vivendo no passado e no futuro, no aspecto horizontal de nossas vidas, porém, desatentos para a dimensão vertical da vida, para o aspecto mais alto e mais profundo, nosso espírito e nosso ser. E a chave para este acesso, é o aqui e o agora.

Às vezes estamos em busca do ‘Ser’ e às vezes ficamos confusos em busca de outras coisas menos importantes, como o sucesso e a fama.

Fonte: Estar em Si – Ciência e Espiritualidade

Publicado em Sem Categoria | Deixar um comentário

Influenciar positivamente o pensamento das pessoas. Isso é Thinking Environment!

Thinking Environment?

Xi, lá vem mais uma modinha… Vou (tentar) explicar em (nem tão) poucas palavras o que é esse modelo de interação humana.

Imagine que cada um de nós pode melhorar a qualidade do pensamento das pessoas com as quais convive. Poderoso? Sim, muito. Agora imagine saber como construir equipes e grupos, nos quais cada individuo trata o outro bem rotineiramente, sabendo que assim extrai-se o melhor delas, gerando o máximo do pensamento inovador e produtivo. É como escolher as melhores sementes para colher os frutos mais doces e saborosos. Mais ou menos assim.

O Thinking Environment, ou Ambiente de Pensamento, é um método ou um modelo que parte da identificação dos “Dez Componentes de um Ambiente Pensamento” ™, que melhora drasticamente a forma com que as pessoas pensam, e, portanto, a forma como trabalham e convivem.

Já imaginou o poder dessa prática nas organizações, nos relacionamentos? Procure saber.

“Mesmo em uma hierarquia, as pessoas podem ser iguais como pensadoras”. Nancy Kine

http://www.timetothink.com/meet-us/nancy-kline/

 

 

Publicado em Sem Categoria | Com a tag , , , , | Deixar um comentário

Se você pudesse mudar uma única coisa no Brasil, o que seria?

Publicado em Sem Categoria | Com a tag , , , | Deixar um comentário

O poder das emoções – dialogando sobre o orgulho

Dando sequência a nossa série de enquetes sobre as emoções, voltamos às ruas para saber o que as pessoas pensam, sentem e como lidam com o orgulho. Mais uma vez, observamos que, quando aceitamos a complexidade dos temas e nos despimos de nossos pressupostos, as respostas costumam ser surpreendentes.

Publicado em Blog | Com a tag , , | Deixar um comentário

O poder das emoções – dialogando sobre a ganância

A ganância é um sentimento que se caracteriza pela vontade de possuir para si próprio tudo o que admira. Normalmente, está relacionado a um desejo excessivo direcionado à riqueza material, mas também está associado a outras formas de poder. Se alguém ainda tem dúvida sobre o poder dessa emoção, é bom lembrar que, no Cristianismo, ela é um dos sete pecados capitais. Mais uma vez, fomos às ruas para saber o que é a ganância para as pessoas e o que elas fazem para lidar com sua ganância, quando ela aparece.

Publicado em Blog | Com a tag , , | Deixar um comentário

Consultor vira-lata da linha ziriguidum

Tem consultor para tudo hoje em dia. Eles estão presentes na sua vida pessoal, decorando sua casa, escolhendo suas roupas, o corte de seu cabelo, o que você deve comer, e também trabalham ajudando empresas a desenvolver e implantar processos, transformar culturas, treinar pessoas, entre tantas outras coisas que, um dia, alguém ainda irá organizar um compêndio sobre o trabalho do consultor. Claro que já se publicaram milhares de livros – isso mesmo, milhares! -, mas nenhum na forma de uma “lista OESP”. Não tem a lista, mas tem o Google.

Se você, por exemplo, pesquisar a palavra consultor, além das definições do Wikipedia, vai encontrar a notícia de que o Parreira foi nomeado consultor para a Copa do Mundo 2014 – Deus nos proteja! Mais abaixo, verá um convite para trabalhar como consultora Natura e, se tiver um pouco mais de paciência, poderá ler o artigo “Consultoria: é moda ser consultor?” e se deparar com um dos mitos do trabalho de consultoria: se você se apresenta como consultor, é porque deve estar desempregado. É claro que podem existir casos onde isso acontece. Tanto é que nas empresas de outplacement – consultorias especializadas em ajudar as pessoas a se recolocarem no mercado -, uma das alternativas que costumam ser trabalhadas com os clientes é a carreira na área de consultoria. Espera-se que não seja por falta de opção, mas por vocação. Porque o mercado carece de profissionais de consultoria. As empresas, às vezes, precisam enxergar-se com os olhos de outras pessoas. Consultores trazem olhares para as empresas por ângulos que elas não conseguem ver sozinhas.

Nesse ponto, encontramos basicamente dois tipos de consultores. O primeiro olha para a empresa como um médico olha para o paciente. O trabalho dele é diagnosticar os problemas e prescrever as soluções. Como qualquer médico, normalmente, esse consultor é especialista em alguma competência, mas também já vi consultores do tipo clínico geral, que opinam sobre tudo. O segundo tipo, menos comum do que o primeiro, trabalha como um animador de torcida. Meus colegas irão me matar por essa analogia. Até pensei em fazer uma metáfora com o trabalho do maestro, mas um consultor de processos, como define Edgar Schein, um dos profissionais mais consagrados nessa área, não lidera nenhuma orquestra, mas, qual um animador de torcida, anima um grupo de pessoas a agir. No dicionário, anima significa dar vida a; dar alento, força, coragem; promover o desenvolvimento; imprimir movimento. É exatamente essa a definição do trabalho de um consultor de processos: alguém que ajuda uma empresa a se desenvolver no aspecto que for, porque quem faz o movimento não é o consultor, mas a empresa, ou melhor, as pessoas que fazem parte dela e que são, portanto, as pessoas que mais conhecem sua cultura e que reúnem as competências necessárias para transformá-la. Só que, lembrando uma frase famosa de Einstein, nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. Por isso, o principal desafio do consultor de processos costuma ser criar as condições necessárias para que um determinado grupo de pessoas possa ampliar sua consciência e, assim, resolver o problema endereçado. Aí entra uma lei sistêmica importante: se você não faz parte do problema, não tem como fazer parte da solução. Por mais que se aliem a seus clientes, consultores não fazem parte do problema, não têm, como, portanto, resolvê-los.

Outra definição para anima pode ser encontrada na psicologia junguiana. “Partindo da noção de complementaridade entre a consciência e o inconsciente, ela estabelece que o homem tem uma alma feminina – a anima – e a mulher, uma alma masculina – o animus. Para Jung, o que caracteriza a feminilidade da anima é o sentimento, enquanto o animus está ligado predominantemente ao pensamento racional, essencialmente masculino. No processo de individuação, integrar a anima para os homens e o animus para as mulheres é uma das etapas fundamentais, vindo logo depois da integração da sombra e imediatamente antes da realização do Si-mesmo.” (Para mais informações, vá para “O que é animus e anima na teoria jungiana?” em Yahoo Respostas)

O que esse conceito da psicologia tem a ver com a consultoria de processos? Tudo! Pelas próprias características do atual modelo econômico, as empresas possuem o animus muito mais forte do que a anima. Com o predomínio do pensamento racional, as organizações definem metas ousadas, operam de maneira agressiva, conquistam mercados. Nesse percurso, fazem um estrago danado às relações, desumanizadas pela falta de anima, uma vez que os sentimentos são ignorados. Tanto é que profissionais que costumam demonstrar seus sentimentos são desvalorizados. Chorar, só no banheiro e, mesmo assim, não esqueça de levar o colírio! É preciso integrar anima e animus, buscando um balanço entre os pensamentos masculino e feminino. Isso é necessário para a realização do Si-mesmo, afirma Jung – algo que vale também para as empresas, na medida em que são constituídas por grupos de pessoas e, portanto, para todos os efeitos, também são organismos vivos, entidades humanas sujeitas às mesmas leis biológico-culturais que regem qualquer pessoa.

Chegando aqui, aparece uma outra distinção no trabalho de consultoria e que é expressa a partir de uma pergunta que me deixa de cabelos em pé: “Qual é sua linha?” Como o trabalho do consultor de processos, em certa medida, confunde-se com a atividade do psicólogo, a pergunta não deveria surpreender. Qualquer um que já passou por tratamento psicoterápico teve, em algum momento, a curiosidade de pesquisar a linha trabalhada pelo profissional. Freudiana, Reichiana, Jungiana? E muitos deles, orgulhosamente, se identificam como psicanalistas freudianos – o pleonasmo é por minha conta! -, terapeutas bioenergéticos, entre outras denominações, associando o seu trabalho a uma determinada corrente de pensamento. Uma linha é como um pedigree, dá uma certa autoridade para quem a tem. E esse é o meu problema: não consigo me identificar com uma única linha, o que faz de mim um consultor vira-lata! Sou jornalista de formação, mas não trabalho como um “consultor jornalista” ou como um “consultor em comunicação”. Fiz formações em Consultora Antroposófica, Teoria U, Biologia-Cultural, Pensamento Sistêmico, Diálogo de Bohm, mas não consigo colocar-me como representante de nenhuma dessas linhas. Pensei em me tratar por SRD (Sem Raça Definida) para me identificar, mas me senti ainda mais diminuído pelo uso da sigla.

Vira-latas são cães e gatos que descendem de várias raças e, por isso, também são chamados de mestiços. Darcy Ribeiro, em sua obra mais famosa, “O Povo Brasileiro”, explica a formação de nossa identidade a partir dos mamelucos. “Os nascidos do cruzamento de portugueses com índios não eram considerados pelos índios como sendo um deles, pois para estes, a ascendência que contava era a paterna. A recepção pelo lado paterno era muito pior, pois os mamelucos eram motivo de deboche entre os reinóis e luso-brasileiros. Caso indagasse a si próprio sua identidade, o mameluco só encontraria uma resposta: não sendo mais silvícola, e nem europeu, o mameluco é ninguém.“ Aí surge a ideia da “ninguendade”, cunhada por Darcy. Não se identificando com ninguém, resta-lhe assumir-se como brasileiro, um povo novo. Ainda bem, digo eu! Somos o que somos graças a nossa origem vira-lata.

Saber dessa historia me dá um alívio danado. Não é tão ruim assim ser vira-lata. Pelo contrário, um poodle só pode agir como poodle. Um cachorro filho de um poodle com um pastor alemão, embora não seja lá uma imagem muito agradável aos olhos, pode tanto agir como um poodle quanto como um pastor alemão. Um vira-lata é livre para agir como quiser. Um consultor vira-lata, formado a partir de muitas correntes de pensamento, é livre para trazer as características do pensamento ou pensamentos necessários para cada cliente, a cada momento.

Uma amiga, também consultora vira-lata, me disse que, quando lhe perguntam qual é sua linha, ela simplesmente responde: “minha linha é uma mistura de tudo aquilo que aprendi, mas, se você precisa de um nome, eu lhe darei. É a linha ziriguidum.” Portanto, se você tiver curiosidade em saber o que faço, é simples: sou um consultor de processos por vocação, vira-lata por natureza e adepto incondicional da linha ziriguidum.

Publicado em Blog | Com a tag , , , , , , , | Deixar um comentário

O poder das emoções – dialogando sobre a inveja

Invídia, olho gordo, ciúmes, emulação, despeito, desgosto. São muitos os nomes usados para descrever a inveja. E para você, o que é a inveja? Em que experiência recente você se lembra de ter sentido inveja? Como você faz para lidar com a sua inveja quando ela aparece?

Publicado em Blog | Com a tag , , | Deixar um comentário