Investigação da Realidade Humana

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Vivemos tempos interessantes.
Para os antigos chineses, essa condição era considerada
ao mesmo tempo uma grande bênção e uma maldição.

 

O conhecimento caminha com a descoberta e/ou criação de novos constructos, conceitos, procedimentos e ferramentas para obtê-lo. Por exemplo, a invenção do radiotelescópio permitiu o avanço do conhecimento astronômico para além dos limites do campo englobado até então pelos telescópios óticos. Os exemplos em cada uma das áreas do conhecimento – exatas, humanas, sociais, filosóficas – são infinitos.

Teorias sobre o conhecimento, epistemes, também podem ampliar – ou restringir – aquilo que podemos chegar a conhecer. O mesmo acontece com a visão que temos de mundo: ela pode ou não favorecer a ampliação da atenção e da consciência, pode propiciar a abertura interior/exterior ou confinar-nos aos preconceitos, aos estereótipos, às formas antigas de saber e, dizendo de maneira mais precisa, ao passado.

Vivemos em uma época de enormes transições e incertezas, bem como de extensa criatividade – na ciência, na espiritualidade, na sociedade. Edgar Morin já nos alerta para a necessidade de incluirmos, no nosso saber, a incerteza, o erro e a ilusão. Este é um exemplo de um novo enquadre epistemológico que busca integrar a riqueza e a incerteza do mundo de hoje, vendo nelas uma enorme riqueza de novas possibilidades.

Mas há quem prefira alertar para a decadência atual, a violência, a ansiedade, a depressão, o desperdício, a destruição da natureza e do planeta, as formas viciadas de economia, de educação, de organização social. Tudo isso, para nós, está presente. Como está, mais do que nunca, a necessidade, motivada justamente por essa condição, de buscar novos caminhos – bem novos! – e portanto novas visões de mundo, teorias, ferramentas e procedimentos para propiciar a mudança que precisamos realizar.

A Escola de Diálogo de São Paulo vem trabalhando com uma combinação de procedimentos para investigar fenômenos complexos, que não podem ser compreendidos na sua totalidade pelas perspectivas lineares, causais e mecânicas. Dentro do campo que podemos investigar estão fenômenos grupais, sociais, individuais, econômicos, educacionais, psíquicos – em uma palavra, todos os fenômenos humanos. Essa combinação de procedimentos e tecnologias que utilizamos na Escola de Diálogo tem nos trazido excelentes resultados. Nós a chamamos de “Investigação da Realidade Humana”.

É uma combinação ao mesmo tempo muito simples e bem complexa de diálogo e dramatizações para melhor observar e compreender fenômenos de que queremos nos aproximar. A Investigação da Realidade Humana pode ser usada para trabalhar com indivíduos e grupos, no contexto organizacional, social, clínico e educacional.

Do lado prático, esses procedimentos envolvem o Diálogo, a facilitação de grupos, a dramatização de situações reais. Do lado teórico, envolve uma série de epistemologias e visões da realidade:

- as contribuições de David Bohm e J. Krishnamurti no campo do Diálogo, da presença mental, da atenção e da investigação sobre a realidade
- a fenomenologia existencial e todos os seus desdobramentos como visão de mundo
- a visão de mundo em que a espiritualidade mais profunda se dá na observação da realidade liberta do passado e do preconceito – re-legere, ou re-ligare
- a psicologia profunda de C. G. Jung, com seu trabalho sobre o inconsciente pessoal e coletivo e sobre os símbolos
- a visão Gestáltica e do Pensamento Sistêmico
- a Transdisciplinaridade e os diferentes níveis de consciência
- a visão organizacional integral de Frederick Laloux

 

Como funciona?

Tipicamente uma situação se apresenta a um grupo, uma família, um indivíduo, uma organização, um time. É uma situação complexa, que envolve muitos aspectos inter-relacionados e cuja solução ou encaminhamento não pode ser obtido em uma perspectiva linear. Além disso, por ser complexa, a situação requer uma compreensão mais profunda, para além daquilo que já é conhecido por esse grupo, ou família, ou organização, time, indivíduo.

O grupo se reúne. Estabelecemos o setting para o Diálogo, em que todos podem expressar sua visão sem buscar, inicialmente, conclusões ou encaminhamentos – apenas contemplando e incluindo diferenças. Desse trabalho surgem personagens e movimentos centrais, que são, na verdade, símbolos – carregam uma face conhecida e outra desconhecida. É preciso aprofundar a compreensão desses personagens e interações, e para isso fazemos dramatizações daquilo que se apresenta, para que todos possam observar melhor, para além dos julgamentos e preconceitos.

A arte está em de início, apenas observar a situação, dramatizando-a exatamente do modo como acontece na vida “real”, sem tentar transformá-la ou solucioná-la. Isso permite que a solução não venha de algum conhecimento prévio, passado, enviesado por esse passado, mas sim de dentro da própria situação. É surpreendente ver como a observação realmente atenta traz novas possibilidades. Em outras palavras, a melhor maneira de compreender alguma coisa é descrevê-la. Para isso, dramatizamos. O cérebro não sabe a diferença entre “dramatização” e “realidade”. É tudo realidade!

Portanto, o que fazemos é criar um laboratório de atenção e observação. Essas são as ferramentas de crescimento do humano, conhecidas desde os primórdios, e sempre atualizadas para se adaptarem a cada momento da sociedade.

Em nossa experiência, nada é mais fértil e produtivo do que a observação atenta em busca da verdade. Verdade aqui não é um conceito moral, nem uma crença, mas o resultado da observação de um fenômeno com que nos relacionamos de maneira aberta e isenta de preconceitos.

Grupos de organizações se beneficiam dessa abertura. Professores, coordenadores, alunos de escolas. Famílias. Indivíduos. Essa metodologia tem grande aplicação, como dissemos, pela sua simplicidade e ao mesmo tempo grande profundidade.

 

Entendi. E agora? O que posso fazer com isso?

Para nós, da Escola de Diálogo, é aqui que o trabalho realmente começa.

Sabemos que é possível investigar profundamente, com os nossos procedimentos e com a nossa visão que os embasa, o que quer que desejemos.

A questão é: por onde devemos começar essa investigação? para onde vamos apontar o nosso telescópio? que fenômenos escolheremos para conhecer melhor – que fenômenos é importante que conheçamos melhor, para trazer as mudanças urgentíssimas que necessitamos, todos?

Esse é o nosso trabalho – é a isso que nos dedicamos, junto com aqueles que disso necessitam. Se você busca aprofundamento na sua percepção, estamos juntos.

Quais são as questões cruciais que necessitam de uma compreensão mais profunda? O que é que, se olharmos com atenção plena, pode destravar as mudanças na organização, na sociedade, na família, no indivíduo?

Agora o mais importante é fazer as perguntas relevantes, as perguntas cruciais. Para elas sempre obteremos respostas – podem ser difíceis, pode ser que não gostemos delas, ou até que gostemos. Mas sempre vamos obtê-las. Basta que nós realmente façamos as perguntas importantes, e observemos, juntos, as respostas.

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